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segunda-feira, 13 de abril de 2020

Famílias abrem caixões lacrados à beira das covas coletivas para ter certeza de que estão enterrando seus parentes

O cheiro acre dos corpos entrando em decomposição chegou devagar. Primeiro, um leve desconforto. Logo toda a tenda erguida às margens da vala comum no cemitério do Tarumã para proteger vivos e mortos do sol amazônico foi tomada pelo odor forte e nauseante de seres humanos apodrecendo. 

O cheiro vinha dos sete caixões enfileirados lado a lado aguardando a vez de irem para a vala comum aberta poucas horas antes. Ganhava mais intensidade quando um parente decidia por conta própria abrir as urnas funerárias para checar se o corpo que estava prestes a sepultar era mesmo do seu familiar. 


“Depois do que aconteceu o pessoal quer ter certeza de que está enterrando a pessoa certa”, conta um dos funcionários do cemitério que tentam organizar os enterros coletivos. “Não é o certo, mas do jeito que está a coisa, estamos deixando para evitar problema”, contava ele enquanto urubus sobrevoavam a área destinada aos enterros em vala comum.

Sobrecarregado com um aumento de 300% nas mortes nessas últimas semanas por conta da crise do novo coronavírus, o sistema funerário de Manaus está à beira do colapso. Com sepultamentos se aproximando da casa de 150 a cada dia, os corpos tem sido armazenados em câmaras frigoríficas nos hospitais, unidades de saúde e até no próprio cemitério. 


Muitas vezes os corpos não conseguem ficar na temperatura ideal e entram em processo de decomposição. Com um sistema de identificação rudimentar - em geral uma folha de papel colada ao caixão ou nos sacos plásticos que envolvem os corpos com fita crepe -, as chances de trocas de cadáveres crescem na mesma proporção que aumentam as mortes. 

No último fim de semana, o caso de uma família que precisou peregrinar por hospitais, necrotérios e câmaras frias para encontrar o corpo da matriarca ganhou os jornais e programas de televisão. “Eu não vi meu pai desde que ele entrou no hospital, precisávamos conferir para não correr o risco de enterrar outra pessoa”, contava Dilce Ferreira dos Santos, de 47 anos, logo após abrir a tampa do caixão de seu pai com a ajuda de um irmão e de uma sobrinha. Vítima da Covid-19, Álvaro Silva dos Santos, de 77 anos, ficou internado em um hospital de Manaus por duas semanas, até que faleceu no último sábado. 

Por conta da burocracia e da sobrecarga no sistema funerário, a família só conseguiu fazer seu sepultamento no final da manhã da terça-feira. “O corpo do meu pai ficou andando de um lado pro outro, parece que agora estava aqui no caminhão frigorífico que instalaram ali em cima, mas a gente não sabe direito, por isso decidimos abrir pra ter certeza de que era ele”, contava Dilce, protegida apenas por uma simples máscara de pano. “É tudo uma tristeza e agora vou ter que enterrar meu pai como se ele fosse um cachorro”. 


Ao seu lado, uma outra família checava se o corpo que estava depositado no caixão enrolado apenas com lençóis - ao contrário do que determina a Anvisa nesses casos - era mesmo de seu parente. Sem o acondicionamento correto, o cadáver, que já estava guardado nas câmaras frigoríficas há dias, exalava um cheiro extremamente forte. Sem poder passar pelos procedimentos tradicionais de preparação dos corpos, os familiares levarão como última imagem do ente querido o corpo inchado, com fluídos corporais vazando pelas cavidades da face, como nariz, olhos e boca. “Não é uma imagem bonita e o cheiro você sente que é horrível, mas o que vamos fazer, o pessoal quer abrir pra conferir”, explicava um dos funcionários do cemitério.

Da Redação
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